Significa tudo

14:33

No Mercado do Bolhão só se fala português. Contam-se e vivem-se histórias. Entra-se pela porta principal e já se sente o cheiro a fresco. Não há como descrever: só entrando e sentindo. Os bons dias estão por todo o lado. "Bom dia!" - digo eu também. É a boa disposição de quem trabalha por gosto e, realmente, nunca se cansa.

"Oh freguesa, venha cá ver!" canta a D. Maria. Tem 73 anos e trabalha no Mercado do Bolhão desde os seus 6. Diz que o mercado é a sua universidade. Foi onde aprendeu tudo e tudo mais. As dores do seu braço direito e o peso da idade não lhe tiram a força e a energia que a mantêm viva. Uma vida feita de legumes e de memórias. 

É impossível ficar-se indiferente à boa disposição da D. Maria da Conceição. A cor da fruta condiz com o brilho dos seus olhos, quando afirma que o mercado é a sua paixão. Não consegue imaginar a sua vida sem ele e garante que o Mercado do Bolhão é um mar de histórias que não tem fim , que se vivem diariamente e que ficarão para se contar, um dia mais tarde. 

Há crianças que crescem no mercado e a D. Zaida foi uma delas. A sua escola infantil foi a correr de um lado para o outro do mercado com uma bola improvisada de papel de jornal. Um salto aqui, outro acolá e as suas memórias de infância no Bolhão não têm fim. As risotas, as partidas e o exemplo da sua mãe fizeram de si a vendedora que é hoje. Cresceu ali e assim continua, ao lado do bacalhau, que diz ser o melhor que por aí anda. Comprovo e faço questão de provar outra vez. 

Reparei numa senhora que me chamou a atenção pela sua postura, pelas suas rugas e pelos seus olhos cerrados. Tive a certeza absoluta que estava a precisar de companhia para conversar. Acertei em cheio. Trabalha no mercado há 70 anos e garante que dali não sai. As flores são o seu mundo e nunca falha a sua missão de não as deixar murchar. Tal como elas, é vaidosa e gosta que lhe tirem fotografias. Autorizou-me e fotografei-a. Fez-me prometer que um dia lhe levaria a fotografia para a guardar no seu quarto. O prometido é devido. Até já D. Amélia!

"Significa tudo" foi a  resposta da D. Arminda à minha pergunta "O que é o mercado para si?". Apressei-me a pegar no bloco porque não queria perder o que fosse da sua resposta. Repetiu "Significa tudo.". Depressa percebi que não havia nada a acrescentar. Significa tudo e o tudo é o que faz uma vida.


























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